quarta-feira, 31 de julho de 2013

Afetos Impossíveis



Conheço um sujeito que se apaixonou pela cunhada. Um dia começou a pensar nela antes de dormir. Pouco depois, percebeu que não via a hora de encontrá-la nas reuniões de família. Não que fosse uma beldade, ele me disse. Era apenas uma gordinha brejeira, diferente da pálida elegante que ele namorava. De tanto desejar a mulher do irmão, começou a imaginar que ela também o queria. Achou que percebia olhares, sorrisos, raspões de corpo na porta da cozinha. Um dia, meio bêbado no almoço de domingo, na casa dos pais, teve certeza de que ela tocava os pés dele embaixo da mesa. Uma loucura. 

Como não era personagem do Nelson Rodrigues, nem a vida dele uma tragédia suburbana, num dado momento o surto passou, antes que ele tivesse tempo de fazer qualquer loucura. De alguma maneira, percebeu que, em vez paixão, o que estava sentindo era puro assanhamento - explicável, em boa medida, pelos problemas dele com a namorada. Quando as coisas recomeçaram a funcionar na intimidade dele, a cunhada voltou a ser apenas a mulher sorridente e carinhosa que sempre fora. 

Por trás dessa história inofensiva existe algo que eu chamo de “afetos impossíveis”. O alvo desses sentimentos insolúveis pode ser qualquer pessoa, mas a situação é sempre a mesma: uma fantasia amorosa invade a nossa consciência e ocupa o espaço da vida real. Em vez de mandá-la para o ralo dos devaneios inconfessáveis, nós abraçamos a aberração. Então os problemas começam. 

Há homens maduros que se apaixonam pela filha do vizinho. Há professoras que ficam obcecadas por alunos adolescentes. Há garotas transtornadas por outras garotas que nada querem com elas. Até gente enamorada do amigo ou da amiga cabe nessa definição. O que liga todos esses casos é a ausência de esperança. O que os torna parecido é o fato de esporem os caprichos do nosso desejo. 

Nós queremos tudo, o tempo inteiro. Afeto, sexo, admiração, objetos. É um milagre de sanidade que a máquina de querer que somos nós consiga estabelecer com o mundo – e com outras pessoas transbordando de vontades – alguma relação civilizada. Na maior parte do tempo, mantemos sob controle o aparato desenfreado de querer. Aplicamos sobre ele o duro princípio da realidade. Eu quero, mas Fulana não quer. Eu tenho vontade, mas não posso. Já tentamos e não deu certo. São mecanismos racionais de defesa que funcionam. Secretamente ainda queremos, mas esses mecanismos nos ajudam a socar a vontade inconfessável no porão da alma, lá embaixo, onde só entramos escondidos uma vez por ano, geralmente bêbados. 

Quando permitimos que uma vontade assim escape do porão ela vira um afeto impossível, espécie de Godzila emocional destruindo o centro de Tóquio, que somos nós. Desejo pela cunhada, paixão pelo amigo gay, o impulso de procurar aquela mulher que agora está casada com dois filhos. Que tal escrever, de novo, para aquela pessoa que trata você como lixo? Ou reatar o romance destrutivo que pôs à mostra o que há de pior em você? 

Não é preciso ser tabu para ser um afeto impossível. Cada um de nós conhece melhor que ninguém o rosto do seu mostro e os contornos do porão sombrio de onde ele saiu. São desejos sem correspondência na realidade. Autoindulgências perigosas. Situações trágicas, no sentido de que o seu desfecho é mais ou menos inevitável desde o início. Coisas que nos machucam, e, no limite, são capazes de nos destruir. Quem se concede esse tipo de fantasia está fadado a dar com os burros n’agua 9,5 em cada 10 vezes. Mas muitos insistem em tentar. 

Afinal, hoje em dia vivemos para realizar os nossos desejos. Acreditamos que a satisfação das nossas fantasias é a única forma de felicidade - na vida material e nas relações afetivas. Em vez de cultivar o senso de proporção e de realidade, agimos, na vida amorosa, como consumidores afoitos para quem tudo está disponível. Acreditamos no triunfo do desejo mesmo que ele dispute com a lei da gravidade. 

Pois eu acho que os limites existem. Cunhada não pode, filha do vizinho é demais, gente maluca não dá. Quem apenas nos faz sofrer está fora da lista, paixão platônica por amigos é burrice, dependente químico precisa de médico. Nem tudo que desejamos é legítimo, afinal. Nem tudo pode. Um dia temos de aprender a dizer não para nós mesmos e olhar os erros de frente. Aprender com as decepções. Em vez de ilusão, realidade. Em vez de devaneio, mundo real. Os afetos impossíveis resultam em boas histórias do Nelson Rodrigues – mas são histórias que ninguém quer levar na própria biografia. 


sábado, 13 de julho de 2013

06 anos de blog!



Só passei para registrar que semana passada (07/07/2013) 
este blog completou 06 aninhos! VIVA!

sábado, 29 de junho de 2013

[QUOTES] Persuasão - Jane Austen




Pérolas de Persuasão

"E é a singularidade que, na maioria das vezes, determina a pior parcela do nosso sofrimento, tal como sempre faz com nossa conduta."

"Na juventude, obrigaram-na a seguir a prudência; ao amadurecer, aprendera o romance: a sequência natural de um começo antinatural."

"Logo, entretanto, começou a racionalizar e a tentar se emocionar menos. Oito anos, quase oito anos haviam se passado desde que tudo terminara. Como era absurdo voltar a sentir uma inquietação que o tempo relegara à distância e à sombra! O que não fariam oito anos? Acontecimentos de todo tipo, transformações, alienações, mudanças... tudo, tudo poderia estar neles contido, e o esquecimento do passado... como seria natural, com seria certo também! Oito anos representavam quase a terça parte de sua própria vida. Uma pena! Com toda a sua racionalização, ela descobriu que, para sentimentos reprimidos, oito anos poderiam ser pouco mais que nada."


"Não poderia haver outros dois corações tão abertos, gostos tão semelhantes, sentimentos tão em uníssono, expressões tão amorosas."


"Seu estado de espírito precisava da solidão e do silêncio que só um grande número de pessoas pode conferir."

"Observou, analisou, refletiu e afinal concluiu que não se tratava apenas de um caso de força moral ou resignação. Um espírito submisso poderia ser paciente, uma inteligência firme poderia encontrar soluções, mas ali havia algo mais, havia aquela elasticidade da mente, aquela disposição em aceitar ajuda, aquele poder de prontamente passar do ruim para o bom e de encontrar ocupações que a fizessem sair de si mesma que só pertencia à própria natureza. Tratava-se do maior dos dons divinos."

"Aqui e ali, a natureza humana pode ser grande em tempos de provação, mas, de modo geral, é sua fraqueza e não sua força que surge num quarto de doente: são o egoísmo e a impaciência, mais do que a generosidade e a coragem, que se fazem ouvir."

"Ele a considerava uma moça um tanto extraordinária; um modelo de dignidade feminina por seu temperamento, maneiras, inteligência."

"Embora já se conhecessem há um mês, ela não estava convencida de que realmente conhecia seu caráter. Que ele era um homem sensato, um homem agradável, que falava bem, emitia boas opiniões, parecia julgar com correção e como um homem de princípios, tudo isso era bastante claro. (...) [Porém] nunca havia uma explosão de sentimentos, nenhum arrebatamento de indignação ou prazer perante o mal ou o bem existente nos outros. Isso, para Anne, era uma clara imperfeição."

"Acreditava poder confiar muito mais na sinceridade daqueles que às vezes agiam ou diziam algo inconsequente ou afoito, do que naqueles cuja presença de espírito jamais se alterava, cuja língua nunca escorregava."


"Há sempre algo de ofensivo nos detalhes da astúcia. As manobras do egoísmo e da duplicidade são sempre revoltantes."

"Lá voltaram outra vez ao passado, mais encantadoramente felizes, talvez, naquele reencontro do que quando pela primeira vez projetaram sua união; mais TERNOS, mais SEGUROS, mais baseados no conhecimento do caráter, da lealdade e da felicidade um do outro, mais capazes de tomar atitudes, mais RAZOÁVEIS ao agir."

"Só conseguia pensar a seu respeito como alguém que cedeu, que desistiu de mim, que se deixou influenciar por outra pessoa mais do que por mim."

"Preciso aprender a suportar ser mais feliz do que mereço."

"Há em alguns uma agilidade de percepção, uma sutileza na avaliação do caráter, um discernimento, enfim, que, em outros, nenhuma experiência consegue igualar."

"Sua fonte de felicidade vinha da intensidade de sua fibra, assim como a de sua amiga Anne, do calor de seu coração."

“Já não consigo mais permanecer em silêncio. Tenho de lhe falar pelos meios ao meu alcance. Anne, você trespassa-me a alma. Sinto-me entre a agonia e a esperança. Não me diga que é muito tarde, que sentimentos tão preciosos morreram para sempre. Declaro-me novamente a você com um coração que é ainda mais seu do que quando você o despedaçou há oito anos atrás. Não diga que o homem esquece mais depressa que a mulher, que o amor dele morre mais cedo!
Eu não amei ninguém se não a você. Posso ter sido injusto, posso ter sido fraco e rancoroso, mas nunca inconstante. Vim para esta cidade unicamente por sua causa. Os meus pensamentos e planos são todos para você. Não reparou nisso? Não se apercebeu dos meus desejos? Se eu tivesse conseguido ler os seus sentimentos, como creio que você deve ter decifrado os meus, não teria esperado tanto tempo.
Mal consigo escrever. A todo momento ouço algo que me emociona. Você abaixa a voz, mas eu consigo ouvir os tons dessa tua voz mesmo quando os outros não conseguem. Criatura muito boa e pura! Porém, faça-nos, de fato, justiça, ao acreditar que os homens são capazes sim, de um verdadeiro afeto e uma verdadeira constância. E creia que esta, é fervorosa e firme em F.W.
Tenho que ir, inseguro quanto ao meu futuro."



Seleção feita por mim, com carinho. ;-)

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Heartlines



Just keep following
The heartlines on your hand
Keep it up
I know you can
Just keep following
The heartlines on your hand
'Cause I am!
Heartlines - Florence And The Machine



sábado, 8 de junho de 2013

[RESENHA] Fique Comigo - Harlan Coben




Pois bem, depois de uma série de leituras do Harlan exclusivamente de títulos com o Myron Bolitar, dessa vez quebrei a sequência com um livro fora da série desse protagonista. Fique Comigo é um título bem novo, lançado em 2012 pelo Sr. Coben e fica ali entre os livros apenas bons do autor. Está longe de ser o melhor ou o pior dos títulos do Coben, mas carrega aquela assinatura característica do autor que é o suspense e as reviravoltas na trama.

Em Fique Comigo temos de um lado um fotógrafo trucidado, que está no fim do poço tanto da sua vida profissional quanto pessoal. Sobrevive com um empreguinho risível de paparazzi de mentira para falsas celebridades que pagam para serem perseguidas por fotógrafos. Bem deprimente, por sinal essas pessoas. Pois bem, esse é o Ray Levine.

Do outro lado completamente oposto, está a linda dona de casa Megan Pierce. Com um casal de filhos já crescidinhos, um marido que a ama e uma casa chique em um bairro rico americano, Megan seria uma dona de casa rica como qualquer outra. Não fosse seu passado trancado a sete chaves e escondido de todo o mundo em que vive, inclusive do seu marido.

Entre esses dois personagens existem assassinatos antigos sem solução, passados dos mais cabeludos e escondidos possíveis, paixões avassaladoras e abandonadas às pressas, psicopatas, bordéis, homens de família pervertidos e sangue, muito sangue. Um delegado de polícia tenta entender um desaparecimento, que acaba desencavando outros tantos, que começam a parecer assassinatos, e Ray e Megan parecem estar envolvidos até o pescoço. Na verdade, Megan não é Megan, nem nada nessa história é o que parece.

Como é típico do Harlan Coben, é impossível se desvendar o mistério dessa história nem no início nem depois de continuar lendo o livro. Até as últimas páginas reviravoltas continuam acontecendo e tudo o que você um momento supôs, se mostra equivocado, e quem menos parecia ser suspeito, agora parece um bom candidato a serial killer.

Já falei isso várias vezes por aqui, Coben é sempre uma leitura agradável. Você sempre vai ter a atenção retida a trama. Apesar deste título não ser um dos melhores do autor, vale a leitura. Fica a dica.


QUOTE:

"Pensou em como o passado nunca nos abandona, nem as partes boas nem as ruins; em como o colocamos dentro de uma caixa e a guardamos em algum armário, pensando que nunca mais vamos abrí-la. Então, um belo dia, quando nos sentimos sobrecarregados pelo mundo real, vamos até o armário e pegamos a caixa de volta."


Aldrêycka Albuquerque

sexta-feira, 7 de junho de 2013

A relatividade do tempo, by Jane Austen




"Logo, entretanto, começou a racionalizar e a tentar se emocionar menos. Oito anos, quase oito anos haviam  se passado desde que tudo terminara. Como era absurdo voltar a sentir uma inquietação que o tempo relegara à distância e à sombra! O que não fariam oito anos? Acontecimentos de todo o tipo, transformações, alienações, mudanças... tudo, tudo poderia estar neles contido, e o esquecimento do passado... como seria natural, como seria certo também! Oito anos representavam quase a terça parte da sua própria vida.  
Uma pena! Com toda a sua racionalização, ela descobriu que, para sentimentos reprimidos, oito anos poderiam ser pouco mais que nada." 
[1816] Persuasão,  Jane Austen. 



ILUSTRAÇÃO: http://www.illustrationmundo.com/audio/artist/133/ 

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Nota mental 2: o charme do olhar de desprezo.




Às vezes um olhar de desprezo é só um olhar de desprezo, não é uma represa chamada DARCY pronta pra estourar. 
Aldrêycka Albuquerque 

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Nota mental para a vida






Seus defeitos e fraquezas são propriedades sigilosas e intransferíveis suas. Identificá-los e tratar deles é necessário, mas que seja feito com cautela e privacidade. Ser honesto sobre suas falhas com o outro, requer um nível de intimidade grande e ainda assim deve ser feito com parcimônia. E quem fala isso é uma pessoa que viveu a vida inteira falando aos quatro ventos seus medos, receios e defeitos. Eu pensava que verbalizar fazia parte do processo de aceitação e demonstrava probidade de caráter. Eu a todo o momento queria deixar claro ao outro quem eu era, cheia de defeitos e algumas virtudes. Isso me dava certa leveza e brilho nos olhos, mas do outro lado o cenário era diferente.


A teoria dos jogos é uma tática que foi inserida no nosso DNA e que praticamos até sem perceber. As pessoas (obrigatoriamente) ao se sentirem acuadas ou ameaçadas não vão pensar duas vezes em acertar no seu nervo. Naquele mesmo nervo que você expôs ao falar de si por aí. E eles não terão piedade. Muitas vezes serão tão sutis, que você nem sentirá a pancada. Só a tontura, o calor do sangue escorrendo ou só o desmaio. Não que as pessoas sejam em tudo ruins, não que você mesmo não tenha feito algo do tipo com alguém algum dia. A questão é que a teoria dos jogos pode ser identificada todo santo dia, do diálogo mais comum às discussões mais acaloradas. Os argumentos serão construídos em cima dos pedaços vulneráveis dos partícipes. É uma tática tão usada hoje quanto nas tantas batalhas da História e até no reino animal. O ser mais frágil será sempre o alvo. O predador sempre irá perceber seu membro ferido antes mesmo de perceber você. Não existe, contudo a total premeditação, a completa racionalidade nesses casos. Agimos assim por instinto, boa parte das vezes.


A maioria das pessoas pouco evoluídas enxerga pessoas melhores que elas como uma ameaça, e não uma inspiração. Se você se destaca em alguma área, se tem alguma habilidade incomum, ou simplesmente é diferente que os demais em alguma coisa, já será excluído do grupo. De forma intencional ou não, as pessoas entram em posição de defesa ao identificarem que são menores ou piores que quem quer que seja. Isso vale para marido e mulher, amigos, irmãos, pares no trabalho, qualquer relação minimamente de igualdade. A primeira reação ao se identificar pior que alguém é o medo e a rejeição automática. Poucos conseguem manifestar (programaticamente ou não) o sentimento de admiração ou inspiração nesses momentos. Principalmente quando se trata de pessoas próximas, que não são idealizadas ou inatingíveis. Quando a figura referencial não está longe ou mitificada, como um guru, um líder ou ídolo, a principal reação é a “eliminação para sobrevivência”. O referencial precisa estar longe para evitar comparações. Deles próprios ou dos demais. Então resguardar a genialidade ou qualquer grau de inteligência é mandatório. Qualquer demonstração de conhecimento e iluminação deve ser feita com cuidado, em doses pequenas e apenas quando for expressamente necessária.


E por último, mas não menos importante, nunca subestime: a ignorância, o ódio, a inveja, a teimosia, a mentira, a audácia, a maldade e a falsidade do outro, bem como sua dor. Sempre que for possível ou houver espaço, as coisas ficarão piores. Viva com isso em mente e pronta para um plano de contingência.


Aldrêycka Albuquerque

domingo, 12 de maio de 2013

O dilema da presa e do predador e outros assuntos aleatórios





Faz meses que não venho aqui atualizar sobre minha vida. E como esse blog é meu escape terapêutico, não escrever aqui sobre mim é o mesmo que pagar um analista e faltar às sessões. E isso é algo feio de se fazer, certo? Então vamos para o que interessa.

Eu andei pensando esses dias. E acho que essa minha mania de querer estar longe de tudo, fora do circuito usual, diferente até o fio de cabelo, separada de tudo e todos, é na verdade um problema. Não que eu ache que seja um problema maior que tantos que vemos por aí, mas até que ponto isso deixa de ser um estilo de vida pra virar um nojinho? Um jeitinho nojento de pensar, como se eu fosse superior a tudo e todos? Não querer cometer os mesmos erros que todo mundo é uma forma de afirmar meu autocontrole (como sempre prego aos quatro ventos), ou é apenas uma forma de me sentir superior?

Não sei precisar qual foi o exato momento que essa concepção veio até mim quase como uma caixa pesada caindo de um avião sob minha cabeça. Talvez foi num dia que li num livro uma personagem que dizia que desde a maternidade ela veio com um grande problema de não se conformar com nada, tudo precisava estar melhor, então ela reclamava de tudo. Então prestei atenção em mim, e me vi desconfortável a todo momento. Aonde eu vou, com quem quer que eu esteja, eu estou desconfortável. Como se alguma coisa fedesse levemente e mesmo sem perceber, eu estava pra cima e pra baixo com a respiração segurada. Tentando não respirar pelo nariz para não se contaminar com o mau cheiro. Eu meio que sou assim. Todo dia, em qualquer lugar. Isso é feio!

Eu julgo todos a todo momento, e consciente do que estou fazendo! Mas olhe, veja bem, não são julgamentos maus, nem rígidos. É como se minha maldita ansiedade, que carrego desde o útero da minha mãe, não me permitisse conhecer as pessoas primeiro, analisá-las e depois sair com um diagnóstico. Okay, parece feio, mas isso é algo que todo mundo faz. Conscientemente ou não. O problema é que eu bato o olho em alguém e já dou um diagnóstico. Consciente de que posso estar errada, mas flexível ao ponto de esperar que essa pessoa me faça mudar de ideia sobre ela. O problema (ou sorte?) é que geralmente eu acerto. E então as pessoas se tornam pra mim tão previsíveis... São comentários, olhares, sorrisos, atitudes que parecem que denunciam cada uma delas. E então o que fazer com diagnósticos assim tão precisos? Se sentir incomodada! Prendendo a respiração. Sorrindo e tentando entender o porquê da pessoa ser assim.

Não que eu nunca erre. Já errei algumas vezes. Não sei se por acaso ou não, mas geralmente isso ocorre com homens. Não sempre, poucas vezes. Com alguns eu faço  diagnósticos equivocados. Troco um ato de desejo, por simples interesse. Simpatia por caráter. Não sei, mas às vezes eles me confundem. Não sempre, é claro. Sou bem assertiva nesse departamento. Mas quando eu erro, geralmente foi por que fiz um diagnóstico positivo pra alguém não tão legal assim. Mas, rapidamente percebo o erro e tiro o time de campo. Mas já foi, errei. E volta a mania de me achar melhor, superior de alguma forma. "Mas eu nunca faria isso. Nunca mentiria dessa forma. Nunca diria isso assim dessa forma. Mas o que ele está pensando? Que insensível. Opa, é isso. Ele é só mais um. Que pena, pensei que ele fosse diferente." Então nessa mania doida de ficar chegando a diagnósticos de que todos são iguais entre si, e diferentes de mim, me coloco numa posição de superior, não acham? Ou sou apenas diferente mesmo?

Não encontrar até agora alguém que pense como eu, haja como eu, ou viva da mesma forma que vivo, prova que eu realmente sou diferente, ou que eu tento me mostrar superior de todo mundo, então tento ser diferente de alguma forma? Velho dilema do ovo e da galinha...

Então tinha esse cara. [Sempre tem, né?] E dele vinha uma estática diferente quando estávamos juntos. E os comentários dele passaram ser diferentes da maioria. Coisas que só passavam na minha cabeça, ele falava naturalmente. Sem me estudar, sem querer ser estrategista, ele falava e fazia muita coisa das quais eu pensava e fazia. E ele mal me conhecia! O que seria aquilo? Ele então era "um dos meus"? Aquilo era sincronia? Um dos diferentes no meio da multidão de iguais? Então eu peguei aquilo ali e me agarrei. Fiz a besteira (que sempre faço) de falar abertamente das minhas falhas e meus pontos fracos, me permitir conhecê-lo ao fazer ele conhecer a mim. E ele parecia tão confiável, não precisei de muito tempo pra isso. Meus diagnósticos super-rápidos quase sempre estão certos. Porém não estavam dessa vez. Ele era só uma pessoa simpática. E que como a maioria, na primeira oportunidade que teve de atingir um nervo, ele fez. Sorrindo. Aquilo tudo não era uma paixão, não eram duas pessoas se conhecendo e começando a se gostar de alguma forma. Era um tubarão fazendo seu papel na cadeia alimentar que é cercar a presa antes de atacar. E não importa se ele não tinha intenção de atacar ali ou depois. Talvez ele nem tivesse intenção de atacar. Ou se o momento tivesse sido propício ele até atacaria mesmo, ele é um tubarão! O negócio aqui não é o ataque, é o cercar. Eles vão te cercar estando com fome ou não. E eu não vi que era um ritual de ataque, pensei que fosse outra coisa. Ele nadando ao meu redor, pronto pra atacar e eu ouvia música!! Pensava que ele estava dançando comigo. Ôh tolinha...

Excetuando-se todos os dramas, é isso o que acontece de vez em quando comigo. Então todas as máscaras caem e eu volto à questão inicial. Ele é mais um, eu diferente. Isso é querer se achar num patamar superior?

Então tinha esse outro cara. Antes mesmo de fazer um diagnóstico desses rápidos que faço (e seria bem provável que eu iria cometer com ele um daqueles errinhos que  de vez em quando cometo), ele deu uma super pisada de bola que me fez rapidamente colocasse um rótulo bem na cara dele, e então fechei o caso. Closed case, não tinha mais discussão. A atitude dele só provou que ele não só era mais um dos tantos por aí, como parecia ser de uma espécie ainda mais desprezível. Ele era um daqueles que caçam por hobbie, ou por vício. Compulsivamente. Então joguei um rótulo pra ele e segui em frente. Porém o tempo passou e me permiti conhecê-lo despretensiosamente. Lógico, que a todo momento o diagnóstico estava muito claro. Porém de repente me vi numa encruzilhada. Ele tinha um dos piores diagnósticos, mas mesmo assim me fazia sentir atraída naquele campo gravitacional dele. E eu não falo aqui de desejo sexual, é muito mais complexo que isso. São daquelas pessoas que você sente que pode falar o que realmente pensa, e ela vai entender. E você vai se sentir cada vez mais tranquila em se abrir pra ela, e mais uma vez falar das suas falhas, dos seus pontos fracos. E lá estava eu, novamente sem o mínimo pudor de falar de mim, falar abertamente sobre minhas falhas. Isso é uma merda! As pessoas se aproveitam disso, e vão usar isso contra você quando você menos esperar. Mas lá estava eu, me abrindo pro cara do diagnóstico ruim. Se eu quebrei a cara? Até agora não. Mas sinto que esse não é o caminho certo. A transparência leva a intimidade, que leva a um certo grau de desejo intelectual que pode levar ao desejo sexual. Aí quando chega nesse estágio, os diagnósticos vão para o saco. E isso é perigoso. Principalmente por ele ser um daqueles que facilmente te fazem se abrir, e dele não sai nada. Você não o conhece nem o pouco. Você sente que não vai conseguir ir muito além do superficial. O nível de profundidade que você vai quando fala de você, ele nunca se permitiria ir. Talvez pra analista dele sim, mas nunca pra você. E ele é um enigma. Um enigma com um diagnóstico ruim e que se você não tiver cuidado, vai arrastar você pela gravidade. E isso não terminaria bem.

Não sei se é minha sina de complicar tudo. De reclamar de tudo. Ou se apenas estou mais uma vez me sentido superior a todos. Mas não vejo sentido na presa se permitir conhecer pelo predador. Por mais simpático e interessante que o tubarão seja, ele jamais poderia ter qualquer relação saudável com um peixe. Pois aquela peixinha vai ser igual a todos os milhares de peixe que ele já devorou, o que mudaria? Só existiria um tubarão na vida da peixinha, mas quantos peixes o tubarão não já devorou ao longo da vida? Não faz sentido. Diagnósticos ruins devem ir para o mesmo lugar que todos eles vão. Para longe, muito longe, para não dar maiores dores de cabeça.


About to get lost. Again.


sábado, 4 de maio de 2013

[RESENHA] - O Livro do Amanhã - Cecelia Ahern



Primeiro YA (young adult) da Cecelia Ahern que leio. Na verdade nem sei se ela tem outro livro do mesmo estilo (jovem adulto), mas confesso que não fiquei nada feliz ao descobrir que a protagonista desta história tinha apenas dezessete anos. Okay, colocando meu preconceito pelas histórias adolescentes, esse é um enredo da Ahern, então nunca é ruim.

Como já se fala pelo mercado literário, Ahern é considerada a escritora dos contos de fada modernos. Excluindo-se daí o exagero, é muito legal encontrar uma pitadinha de fantasia nas histórias dela. Lembrando que até o momento eu só li dois livros da autora, o primeiro A Vez da Minha Vida, enredo adulto excelente, e a leitura antes dessa agora, As Suas Lembranças São Minhas, também enredo sensacional. Assim, minha dica para você que prefere heroínas adultas, é deixar O Livro do Amanhã no final da lista dos Must-Have da Cecelia Ahern. Tsc, tsc, tsc.

Dito isso, vamos comentar um pouco sobre o enredo deste livro. Garota adolescente patricinha se vê perdida quando todos os seus bens são confiscados após as finanças da família quebrarem e seu pai ainda por cima, se suicida. A garota, Tamara, é a típica adolescente revolts que começa a entender a si mesma e assim tentar mudar - e amadurecer. A pitada de fantasia deste livro é que a garota encontra numa livraria intinerante um diário "mágico" em branco, que depois de estar em sua posse, ele todos os dias é magicamente preenchido pela versão dela "no futuro". Dessa forma, ela todos os dias consegue ler o que acontecerá com sua vida no dia seguinte, e cabe a ela fazer tudo igual ou mudar alguma coisa. Por isso a referência ao título "O livro do Amanhã". Apesar de ser uma história adolescente, Ahern como sempre traz mistério e uma sequência de acontecimentos que não vai deixar você largar o livro.

Só um comentário que gostaria de registrar, é que você não se engane com as quase 370 páginas desse livro. A editora caprichou no espaçamento e na tipografia tamanho 22 (hahahaha) e por isso o livro parece maior do que é. Com uma formatação comum, acredito que ele não passaria de 260 páginas. Então, apesar de grosso, você vai ler rapidinho.

Fica a dica! A história é super gostosa de ler.

Abraço! E até a próxima, folks!

QUOTES:

"Ninguém que fala tão pouco é tão simples quanto pensamos. Não dizer quase nada exige muito, porque quando você não está falando, está pensando."

"Nada tem a ver com religião, nada tem a ver com estabilidade emocional, mas tem tudo a ver com o instinto natural da mente humana, que consiste em ter esperança além de toda a esperança."


Aldrêycka Albuquerque

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Sobre a versão alternativa que existe em mim



Ela exige demais de mim. Pega no meu pé. Me lembra de tudo o que não sou, de tudo que não vivi. Fala que eu não tenho jeito, que perdi o bonde, que todos foram e eu fiquei.

Ela me pega pela palavra, pela ponta da língua e me humilha. Me mostra tudo o que não poderei ser, tudo o que deveria ter feito. Me esfrega na cara tudo o que eu poderia estar fazendo e não faço. Por medo, por preconceito, por comodismo. Por fraca que sou.

"Então dê o que ela quer, oras!" Não. Ela uma hora vai embora, e eu fico. Fico aqui com as consequências enquanto ela vai embora importunar os outros. Pra quê se importar com alguém que chega e vai embora sem se dar o trabalho de pensar em você? 

Mas se hoje ela vai, outra hora volta. E se volta mais forte e cheia de urgências? Mas quem seria eu se não soubesse lidar com as urgências dela? Como poderia então eu lidar com as minhas próprias urgências e administrar as urgências dos outros sobre mim, se nem as delas eu sei sucumbir?

Enquanto isso a sufoco... Com um travesseiro de pena de ganso, docemente sufoco todos os desejos malucos dela e todos os sonhos impossíveis que ela quis pra mim. Mato essa versão de mim todos os dias, quando tantas vidas que não vivi, sorriem pra mim assim faceiras. Sufoco essa versão torpe de mim, quando tantos sonhos dos outros me são emprestados com o único propósito de me sentir distante.

Não sei se em algum Universo paralelo, desses que cruzamos todos os dias sem sentir, ela se encontra feliz. Menos reclamona e mais satisfeita com a vida. Não sei se nossa coexistência seria pacífica em qualquer esquina cósmica que fosse, ou se continuaremos assim em pé de guerra por toda a eternidade. Em qualquer Universo que seja. Será que um dia estarei em paz com todas as versões que contêm em mim?


Aldrêycka Albuquerque

domingo, 14 de abril de 2013

Quando Fui Chuva




Quando Fui Chuva - Maria Gadu e Luis Kiari

Quando já não tinha espaço pequena fui
Onde a vida me cabia apertada
Em um canto qualquer acomodei
Minha dança os meus traços de chuva
E o que é estar em paz
Pra ser minha e assim ser sua

Quando já não procurava mais
Pude enfim, nos olhos teus vestidos d'água
Me atirar tranqüila daqui
Lavar os degraus, os sonhos e as calçadas

E assim no teu corpo eu fui chuva
Jeito bom de se encontrar
E assim no teu gosto eu fui chuva
Jeito bom de se deixar viver

Nada do que eu fui me veste agora
Sou toda gota, que escorre livre pelo rosto
E só sossega quando encontra a tua boca

E mesmo que em ti me perca
Nunca mais serei aquela
Que se fez seca
Vendo a vida passar pela janela

Quando já não procurava mais
Pude enfim, nos olhos teus vestidos d'água
Me atirar tranquila daqui
Lavar os degraus, os sonhos e as calçadas

E assim no teu corpo eu fui chuva
Jeito bom de se encontrar
E assim no teu gosto eu fui chuva
Jeito bom de se deixar viver. 


<3


terça-feira, 26 de março de 2013

O Velho Homem e a Felicidade



Então, numa fração de segundos senti que algo dentro de mim envelheceu. 
Se enrugou tal qual uma uva passa. 
Curvou-se sobre si mesmo,
Como se não suportasse o peso de sua própria existência. 
Era o velho homem.
Mais uma vez a me segurar, 
Como um peso morto sobre meus sonhos
Prendendo sob si a minha felicidade.

Aldrêycka Albuquerque

domingo, 10 de março de 2013

[RESENHA] As Suas Lembranças São Minhas - Cecelia Ahern





Este é o segundo livro da Ahern que leio e já posso dizer que estou virando fã dessa escritora. As suas lembranças são minhas (Thanks for the memories) assim como A vez da minha vida (The time of my life) – que li no anopassado – são livros sem muitas reviravoltas ou questões filosóficas, porém são tramas emocionantes e únicas. São do tipo de livro que você não costuma ver por aí pelas livrarias. Bem como o aclamado best seller PS Eu te amo (PS I love you) – também da Cecelia Ahern, e que por sinal ainda não li – , são livros que misturam histórias simples do dia-a-dia (a boy meets a girl), põem uma pitada de fantasia e pronto! Temos um livro que depois de lido custa esquecer!


Em As suas lembranças são minhas somos apresentadas a Joyce, uma irlandesa que já chega ao enredo do livro em uma situação delicada. Ela acaba de cair da escada e sente que acabara de perder o filho que estava esperando. Do outro lado do oceano (e da história), conhecemos o Justin Hitchcock, professor de história da arte, natural dos Estados Unidos e que há poucos meses está morando na Inglaterra. Então, de forma completamente casual, a vida destes dois se cruza. E com uma pitadinha de fantasia (como em um conto de fadas) eles recebem do destino uma conexão tão forte, que passa a mexer com a vida dos dois de uma forma a colocar tudo de cabeça para baixo.


Essa história ensina a gente que às vezes, algumas coisas acontecem na nossa vida de forma tão repentina e sem sentido, que o melhor que temos a fazer é simplesmente aceitá-las. Sem muitas perguntas ou sem querer entender o porquê de tudo. Às vezes a felicidade pode chegar a nós dentro de uma cestinha de muffins de canela, deixada na nossa porta de entrada, com um bilhete e vago e sem o nome do destinatário. E as duas únicas opções são, deixar a felicidade entrar assim cheia de mistérios, ou ficar paranóico para saber como os muffins chegaram ali ou quem foi que fez aquilo. As duas opções são factíveis, mas com certeza os bolinhos serão mais gostosos se apreciados com a curiosidade e receptividade da primeira opção. 


Justin Hichcock custou a entender isso e perdeu muito tempo querendo caçar a felicidade. Por muito tempo comeu os bolinhos muxoxo, sem sentir muito o gosto, até entender que tinha que mudar de abordagem. Joyce por outro lado, apesar da natureza humana curiosa e questionadora, embarcou com tudo no que estava sentindo, sem se perguntar muito se aquilo fazia sentido. E os dois, num dado momento entenderam a “moral da história”. Uma hora precisamos parar com as perguntas e simplesmente agradecer. À surpresa, à vida, à cestinha de muffins, ao amor de cachecol vermelho tremendo de frio na frente da sua casa... E quanto mais rápido você parar de questionar tudo e aceitar, as coisas ficam mais fáceis, mais leves, e então a felicidade faz morada permanente na nossa vida.


Hugh Jackman e Ashley Judd cairiam bem para o papel, o que acham?


QUOTES:
“Pefer et obdura; dolor hic tibi proderit olim" - Seja paciente e forte; um dia esta dor lhe será útil.

"O que acontece com as pessoas hoje em dia? Na minha época, alguma coisa simplesmente era. Ninguém analisava centenas de vezes. Não havia esses cursos de faculdade com pessoas se formando em Por quês, Como e Porquês. As vezes, amor, você apenas tem que esquecer essas palavras e matricular-se em um pequeno curso chamado "Obrigado"."

"A serenidade absoluta está dentro da mais completa desordem - e acontece rapidamente, num piscar de olhos."

“Lá está ele, parado no portão do jardim com um buquê de flores nas mãos e o olhar mais arrependido do mundo no rosto. Ele está coberto por um cachecol e um casaco de inverno, a ponta do seu nariz e as bochechas parecem vermelhas do frio, os olhos verdes brilhando no dia cinzento. Ele é uma visão; ele tira o meu fôlego com um só olhar, sua proximidade é quase demais para suportar."



Aldrêycka Albuquerque