quarta-feira, 23 de novembro de 2011

23/11/11 - 24 anos



What is that gives us this deepness? What is this bitterness that makes us a better person? What tragedy makes us a reflexive and introspective human being? Always happy people are really silly, naive and shallow?

domingo, 20 de novembro de 2011

Uma palavrinha sobre INTOLERÂNCIA.



A palavra INTOLERÂNCIA ultimamente tem sido muito usada por um grupo de ludibriadores. Mal intencionados ou puramente replicadores, estas pessoas estão tentando vender ao mundo uma idéia muito diferente e deturpada do real sentido da palavra tolerância.

Na última semana correu o o mundo diversas foto-montagens de figurões políticos e religiosos se beijando. Vídeos também foram divulgados. Muito mais que defender o respeito aos homossexuais (trans, bi e afins) estes vídeos e fotos são esforços muito bem feitos e investidos ($$) para propagar a doutrina gay na sociedade. Nos últimos anos a ditadura gay deixou de ser apenas tema de debates políticos para por em questão até a educação primária do seu filho (vide o Kit Gay). E tudo embalado de "luta contra intolerância". 


Intolerância?!

Pois eu vou dizer o que é intolerância. Intolerância é um imbecil de qualquer cor ou sexo bater com uma lâmpada fluorescente no rosto de qualquer sujeito de qualquer cor ou sexo. Intolerância é um pai espancar um filho ou sua mulher. Independem dos motivos. Matar um homo ou um hetero não muda a gravidade do crime. É crime (e ponto) e deve ser julgado com a mesma severidade. Intolerância é um ser que se diz humano atear fogo em um ser vivente que dorme nas ruas. Seja ele um mendigo, um índio, uma criança, ou um animal. Uma pessoa que ateia fogo num ser vivo a bel prazer deve não só ser preso, mas ser acompanhado por um psiquiatra também.

Defender esta intolerância aí, na verdade é semear uma ditadura gay onde esses tem regalias em detrimento dos heteros. E estes em suas campanhas, mais "evangelizam" do que pedem por respeito. Sinceramente, não compro a idéia de vocês. Não compro desde o dia que toda essa luta deixou de ser por respeito por um ser humano, para ser palanque para uma turminha querer converter o mundo para a filosofia gay. Como se fosse um terceiro sexo além do masculino ou feminino. Como se eles fossem intocáveis e qualquer um que questioná-los devesse ir preso. Isso sim é INTOLERÂNCIA, colegas.



Intolerância é eu não poder discordar com a ditadura gay. Intolerância é eu não poder me irritar e me chocar com a foto do Papa beijando um líder religioso muçulmano - mesmo não sendo católica. Intolerância é eu não poder querer que meus filhos não sejam alfabetizados com uma cartilha que mostra todas as formas de homossexualidade que existem, o que esses indivíduos fazem e como fazem. Intolerância é eu não poder exercer meu direito democrático de criticar doutrinas. Direito esse que eles (os gays) estão usufruindo neste exato momento ao fazerem suas reinvindicações.

Então, não comprem essa de intolerância. Esse termo está sendo subvertido. Nossa sociedade precisa aprender a amar ao próximo, a respeitá-lo, independente de cor, credo ou sexo. Mas isso não te impede de criticar doutrinas e comportamentos. Contanto que essas críticas não desrespeitem ninguém, este é seu direito cívico, faça uso dele.

Aldrêycka Albuquerque

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

[RESENHA] Um Dia - David Nicholls



Uma magnífica história, contada de uma forma incomum, ano a ano, no aniversário de quando se conheceram, e com alguns espaços de tempo intercalando o período de 20 anos da vida de duas pessoas: Dexter Mayhew e Emma Morley. Eles se conheceram no dia da formatura da faculdade. Eles não eram da mesma sala, mas se conheciam de vista. Com a formatura, eles acabaram na cama e se conhecendo melhor. Durante vinte anos “cresceram juntos”, porém separados. Às vezes ele na Índia e ela em Londres. Às vezes ele em Londres e ela em Paris. Cartas, telefonemas, às vezes nem isso. Ficaram tanto tempo separados, se viam pouco, mas um precisava do outro.

Dexter Mayhew (clique para ampliar)


O enredo desse livro é espetacular, pois não é nada trivial. Você sofre com Dex e com Em, cada um cometendo suas errâncias, mas também com suas razões. E você começa a entender e respeitá-las.

Esse não é um livro adolescente. Não é um livro bobo de romance. Ele está recheado de questionamento e reflexões que acabamos tomando pra si. Dimensiona a intensidade da vida e põe na balança o que é ou não importante nela. Frustrações, sucesso, carreira, amor, morte, fidelidade, sexo, amizade, família... Este livro é completo. Faz você terminá-lo angustiado por não ter mais informações, por não continuar com aquela história.

Emma Morley (clique para ampliar)


QUOTES

"Achava que tinha a resposta, que eles poderiam resgatar um ao outro, quando na verdade Emma estava muito bem havia anos. Se alguém precisava ser resgatado, era ele." (P.330)

"As pessoas te amam, Dex, de verdade. O problema é que elas te amam de uma forma irônica, meio sacana, uma espécie de mistura de ódio e amor. O que você precisa é de alguém que ame você sinceramente..." (P. 240) 

“- Dexter, eu te amo muito. Muito, muito, e provavelmente sempre amarei. – Os lábios dela encostaram no rosto dele. – Só que eu não gosto mais de você. Sinto muito.” (P.206)


UM DIA do David Nicholls virou filme!
Se você ainda não viu o trailer, são dois: 



Você também pode evitar spoilers e só assistir aos trailers depois de ler o livro, foi o que eu fiz. E não me arrependo. Você só precisa de rostos para os personagens.

Enjoy it. Definitivamente, minha melhor leitura do ano.


Aldrêycka Albuquerque

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Deslumbres Sucumbiram-se



Ela caminhava docemente pela alameda fervilhando de carros, fumaça, ambulantes e urgências de todos os tipos. Deslizando suavemente pelo asfalto, como se ali não pertencesse. Beatriz com os pensamentos nas nuvens, como sempre, questionando o caos do Universo, não se apercebe a figura que a segue. Ela chega a seu destino, naquela ruela quente, cheia de ladrilhos e mesinhas redondas de ferro pegando o fogo pelo sol de meio-dia. Ela entra no restaurante a procura de um abrigo refrigerado, no momento em que o vê. Pedro, ao seu encalço, entrando logo atrás dela. Sorrindo aquele sorriso de mil brancos dentes. Sonoro e tão bem apessoado. Ela não teve tempo de esboçar reação, se virou e procurou uma mesa o quanto mais distante possível. Ele franzio o cenho sem entender a rabiçaca, mas a acompanhou e sentou ao seu lado na mesa. Beatriz sacou sua distração, e pelo telefone delisava o dedo freneticamente, como se realmente estivesse entretida e não tivesse percebido aquele homem todo ali na sua frente.

Se deu a partir dali então, uma série de curtas frases, cheias de dúvidas e à força ignoradas. Beatriz mal tirava os olhos do aparelho, como se tivesse ali nas mãos um escudo contra aqueles olhos inquisidores. Dez minutos depois, enfim ela soltou a respiração. Não mais doía. Só precisou de dez minutos pra perceber que a ferida já não mais sangrava, já não mais ardia. Soltou o telefone na mesa, e abriu um sorriso de quem acaba de ser liberta. Tal mudança repentina de estado de espírito confundiu Pedro. De capataz passou a ser a presa, por um segundo sentiu a espinha arrepiar, talvez seus anos de tortura tenham acabado. A antiga presa indefesa tinha partido as correntes dos próprios pulsos. Acuado quem estava agora era ele. Frente aquele sorriso de mil estrelas daquela que por tanto tempo só tinha olhos grandes, medo e esperança estampados no rosto inocente. 

Beatriz sorriu. Sonoramente. Era um aviso claro de que nada mais era como antes. Ela tinha saído da gaiola onde estivera presa por tanto tempo. Gaiola que só esteve trancada por um cadeado feito de papel, medo, dúvida e imaginação. Ela se soltou de uma prisão que tinha feito para si mesma. E enfrentava seu inquisidor com um sorriso de quem encontra a chave da própria liberdade. Beatriz olha para o rosto de Pedro agora sem medo de se perder por entre aquelas linhas da expressão dele. Percebe que ele não passa de um cara normal, igual aos outros. O coração dela se aqueceu. Não via a hora de falar em alto bom som: não me prendes mais a teus olhares. Não me fazes mais tremer as pernas. Sou só minha agora. 

Tomou um gole da água que pedira no restaurante, sentiu o gelado lhe descer a garganta. Olha nos olhos do seu antigo capataz e dispara, com um sorriso no canto da boca: -"Já era em tempo do deslumbre sucumbir e a tinta descascada na parede úmida enfim se mostrar".

Pedro sorri tristonho, entendendo as palavras poéticas, como sempre, tão bem aplicadas. Ele se levanta e sai dali. Por sete maravilhosos anos ele não mais apareceu. Só virou as costas largas e seguiu com sua vida. Por sete-longos-anos. 

Aldrêycka Albuquerque

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Texto do blog publicado nacionalmente!

Saiu!!!!!!! O livro CRÔNICO! saiu do forno e será lançado oficialmente dia 12/11 no Rio de Janeiro. Nele vocês encontrarão meu texto INDECÊNCIAS que publiquei aqui no Another Thoughts em 2008. Segue press release!


 
Editora Multifoco lança coletânea de crônicas ilustradas.
 

Com lançamento previsto para o dia 12 de novembro, a coletânea Crônico! (R$28, Ed. Multifoco, 100 páginas.), organizada pelos escritores Jana Lauxen e Beto Canales em parceria com a Editora Multifoco, reúne a nova safra de cronistas e ilustradores brasileiros.
São, ao total, 18 crônicas e 18 ilustrações, que reúnem o melhor de todo o material recebido durante a seletiva, que buscou, pelos quatro cantos deste Brasil, cronistas e ilustradores dispostos a colocar seus textos e ilustrações na avenida:

- Existem excelentes escritores e ilustradores em nosso país; infelizmente (e injustamente) em sua maioria ainda desconhecidos. Um dos principais objetivos da Editora Multifoco é encontrá-los e publicá-los. Uma forma de colocar leitores em contato com autores que, através dos meios de comunicação convencionais, nunca teriam a oportunidade de conhecer. – diz Jana Lauxen, uma das organizadoras da coletânea. 

A obra conta com autores do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Paraná, Minas Gerais e Bahia, o que, segundo a organizadora da coletânea, só vem a somar no resultado final da obra, que considera pra lá de satisfatório.

- O Brasil é um país imenso, cheio de culturas diferentes e, naturalmente, de realidades e pontos de vista também diferentes. Reunir autores de diversos lugares do Brasil, cada qual com sua visão sobre situações completamente distintas entre si, trazem ao leitor um panorama atualizado da realidade brasileira. Além do que, é muito interessante descobrir o que pensam estes novos escritores que, de uma maneira ou de outra, também estão escrevendo hoje o futuro da literatura no Brasil.

Os textos que compõem a obra discorrem sobre os mais variados assuntos, indo desde literatura, Deus, galinhas, maconha e futebol, até festas, esperas, pêssego, vida e morte – todos retratados também por meio dos quatro ilustradores, que deram traço e forma aos textos que receberam.

O resultado desta miscelânea de autores, ilustrações, textos e temas poderá ser conferido a partir do dia 12 de novembro, data do lançamento da obra, que acontecerá no Rio de Janeiro, no Espaço Multifoco (Av. Mem de Sá, 126 - Lapa), entre 18h e 21h.

Quem não puder comparecer ao lançamento e tiver interesse em adquirir seu exemplar, é só entrar em contato com a editora Multifoco através do telefone 55 21 25071901.

Um livro que, sem dúvidas, sua estante merece guardar.



terça-feira, 1 de novembro de 2011

Destino

"Será que se apaixonar pela história de uma pessoa é a mesma coisa que se apaixonar pela própria pessoa?
DESTINO - Ally Condie
 
É difícil dizer. Principalmente pra mim, que me apaixono por olhares, sorrisos, queixos, barbas, orelhas, cabelos... Quanto mais por histórias!  Com seus mistérios, dores, amores, suor, luxúria, desejos, mais mistérios, o que nunca é dito, o que é omitido... Histórias são deliciosas! Difícil não se apaixonar por elas! Quanto mais pelas pessoas que as carregam! Cada uma com suas mágoas, suas cicatrizes, seus temores, suas rachaduras. Me apaixono sim!! Por histórias e por seus donos. É a mesma coisa. 
Aldrêycka Albuquerque
 
 
 
- Ok, não sei o motivo de Mr. Darcy estar neste post. Mas ele apareceu aqui na tela, e não pude resistir a esse olhar de censura e desprezo tão sexy. 

domingo, 16 de outubro de 2011

[RESENHA] Ame o que é seu – Emily Giffin





Apesar do nome característico de livros de auto-ajuda, não é este o caso. Acredito que a escolha do título não tenha sido de fato muito feliz. E olhe que nem foi a versão brasileira, já que “Love the one you’re with” (Ame quem está com você) tem o mesmo ar clínico-terapêutico do título brasileiro. Passado todo o preconceito pela fraca escolha do título, vamos para o que interessa: o conteúdo. E esse aí sim, deu gosto de ler.

Versão em inglês - Love The One You're With
Como a sinopse fala, Ellen é casada com Andy, o esposo dos sonhos. Tem uma vida maravilhosa, mas um belo dia ela esbarra na rua com seu ex, Leo. Um encontro ao acaso (no qual todas nós estamos a mercê de vivenciarmos) faz Ellen virar a cabeça e começar a por em cheque seu casamento, sua vida e principalmente sua paz e felicidade pessoal. Um ex, num cruzamento, a fez questionar toda a sua vida. Deu pra sentir o quão grandioso é isso? Por mais fantasioso que pareça, por Deus, poderia ser comigo! Com vocês não?

Este livro é incrível por dar a sensação de que “poderia ser comigo”. Poderia acontecer com uma prima, uma irmã, uma amiga... Isso se cada uma de nós já não conhecer alguma mulher que já passou por isso! Não fosse o título ridículo, que já dá uma dica de qual a posição da escritora mediante tal encruzilhada amorosa, você tem medo da Ellen poder tomar a decisão errada. Se é que existe a possibilidade de rotular certo e errado nessas questões. Mesmo assim, a protagonista vai cometer erros e acertos que nos vão fazer vibrar, arrepiar e suspirar ao ler esse livro. Talvez de início você, como eu, pense: “Ah, mas eu não faria isso... Que frágil e fulgaz ela está sendo.”. Mas ao decorrer da leitura, você percebe a dimensão dos sentimentos dela, o quão Leo consegue mexer com o seu mundo e quanto o Andy a ama verdadeiramente, e ela também. É muito mais difícil que parece, e sim, provavelmente você cometeria os mesmos erros da Ellen, ou até pior. Quem sabe?

Emily Giffin
“Ame o que é seu” é uma leitura leve, instigante, cheia de dramas modernos que extrapolam “assuntos do coração”. Ele permeia questionamentos que vão desde o amor e o luto, até a felicidade, amizade e satisfação profissional. Sinceramente, achei um livro bem completo. Ele nos expõe às fraquezas e dúvidas que a maioria de nós temos e passamos, mas que muitas vezes subestimamos, ou jogamos para debaixo do tapete. É um livro instigador e reflexivo sem ser chato, moralista ou maçante. Enfim, é uma daquelas leituras obrigatórias. Recomendo muitíssimo.

Só uma reclamação: odiei essa de classificar este livro como "chicklit". Tenho meus motivos, já que odeio essa classificação, lê-se "romancezinho de mulherzinha afetada". Então, me recuso a aceitar que este livro esteja dentro dessa nova e pejorativa classe da literatura moderna.

  

Aldrêycka Albuquerque
Resenha feita para o Palavras Prolíferas. 

sábado, 15 de outubro de 2011

:: memórias e cansaços ::



 Vai Passar


Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada "impulso vital". Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como "estou contente outra vez". Ou simplesmente "continuo", porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como "sempre" ou "nunca".

Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como "não resistirei" por outras mais mansas, como "sei que vai passar". Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência. 

Claro que no começo não terás sono ou dormirás demais. Fumarás muito, também, e talvez até mesmo te permitas tomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua volta a paisagem de todo dia, sentirás atravessada não sabes se na garganta ou no peito ou na mente - e não importa - essa coisa que chamarás com cuidado, de "uma ausência". E haverá momentos em que esse osso duro se transformará numa espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. 

E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços. Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamente talvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram teus ombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar. Então fingirás - aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na largatixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça. 

Tão longe ficou o tempo, esse, e pensarás, no tempo, naquele, e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes como voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à tua volta e limpando o suor frio de tua testa. Já não é tempo de desesperos. Refreias quase seguro as vontades impossíveis. Depois repetes, muitas vezes, como quem masca, ruminas uma frase escrita faz algum tempo. Qualquer coisa assim: - "... mastiga a ameixa frouxa. Mastiga , mastiga, mastiga: inventa o gosto insípido na boca seca ..."

Caio Fernando de Abreu

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

...história da vida real...



Às vezes embarcamos numa vida repleta de acontecimentos tão importantes e tão intensos, que nada mais existe ao nosso redor. Entramos de cabeça numa sucessão de sentimentos egoístas onde nossas mágoas são as mais profundas, nossas feridas as mais doloridas, nossos amores os mais devastadores e nossa história a mais tocante. Daí no meio de uma multidão, ou enquanto você abre a página do Facebook, você percebe o quanto está enganada. O mundo está repleto de pessoas apaixonadas, pessoas mais felizes e mais tristes do que nós.  Pessoas com histórias mais doloridas ou muito mais tocantes. Pessoas desiludidas, outras transbordando de amor correnspondido. Aí você cai em si e percebe que o mundo não gira em torno de você e que existem inúmeras histórias deliciosas aí, prontas para serem apreciadas. Como essa linda história VERÍDICA do meu amigo André Valongeiro. Me emocionei tanto com ela que depois de enxugar as lágrimas, pedi autorização para publicá-la aqui no blog. Espero que vocês também gostem.


André Valongueiro e Shirlene Mafra



Há exatamente um ano e dois dias atrás, em 10/10/2010, embarquei com mais dois amigos para o Rio de Janeiro para assistirmos a nossa banda do coração: o Rush! 

Eu e Wagner tomamos os nossos lugares e, logo atrás de nós, Bacalhau sentou ao lado de uma mulher com ar de cansada e que nitidamente estava "puta da vida" por que nós não parávamos de conversar em volume um pouco mais alto e reproduzir passagens de músicas do Rush, batendo nas cadeiras e emitindo sons com a boca. Era a Dra. Shirlene Mafra, que, se não me engano, havia acabado de sair de um plantão e desejava apenas dormir tranquilamente no avião durante a viagem para o Rio de Janeiro, onde participaria de um congresso. 

Lembro claramente do comentário de Wagner: "Mago, essa doida aí de trás tá invocada com a galera!" Nós rimos e continuamos a bagunça assim mesmo! Bacalhau como cascateiro de "primeira linha" - ele, na verdade, é péssimo com as mulheres - logo tratou de colocá-la em nossa conversa. [Obrigado, Bacalhau! =D] 

Eu estava todo remendado: um dos braços completamente ralado, o outro recém-tatuado e com um um dedo do pé quebrado e enfaixado dentro do tênis, fruto de uma queda de bike no dia anterior. Quase perco o vôo nesse dia! 

Eu e ela conversamos muito pouco, mas fui muito esperto e consegui um endereço de e-mail em um momento apropriado da conversa. E na segunda-feira seguinte, quando fiz login aqui no Facebook, ela já havia me adicionado e logo em seguida começamos a conversar no chat. 

Eu havia dito o meu nome completo uma única vez durante uma brincadeira no avião e ela o havia memorizado. Me achei o fodão! [hahaha] Marcamos um cinema no dia seguinte e o resto da história foi o tradicional: "começamos a namorar, tivemos momentos incríveis, viajamos juntos..." Também apresentei a ela o poderoso e devastador Death Metal e tentei mostrá-la o quanto Maria Gadú é "xarope", assim como 90% da nossa MPB atual. [hahaha]

Hoje, 12/10/2011, um ano e dois dias depois do episódio do avião, ela está indo embora. Moçambique é o seu destino e a sua missão é auxiliar portadores do HIV a, de alguma forma, viverem melhor. Missão épica e brutalmente respeitável! Estou tão triste quanto orgulhoso. E para acalmar um pouco o espírito, resolvi escrever esse longo texto, pois escrever me faz muito bem! =) 

Assim é a vida. E não é sábio querer lutar contra tudo. Desejo a ela toda felicidade e sorte do mundo, com toda sinceridade que possuo! As pessoas que a esperam em Moçambique sem dúvida precisam dela muito mais do que eu. Eu vou me virar sozinho! Combinamos que esse não seria um "adeus", mas um "até logo". Um "até logo" que certamente custará a passar, mas que certamente passará! A minha querida namorada Shirlene Mafra vai me fazer falta, muita falta, mas eu vou me virar sozinho! 

Essa foto estava "perdida" em meu celular. A qualidade é péssima, mas lembro que ela foi tirada aqui em casa, na primeira noite em que ela esteve aqui para me buscar e sairmos juntos para jantar. 

...Histórias da vida real! Há milhares delas por aí, mas acho a minha bem interessante.


André Valongueiro



O texto original foi postado pelo André AQUI
E vocês podem acompanhar alguns dos textos dele neste link: http://www.valongueiro.blog.br/   

Uma carta à minha infância

Eu, em 1989, 2 anos.


Cara pequena,

Não perca tanto tempo planejando o implanejável, permita-se surpreender.

Não se cobre tanto, pelo menos não o tempo todo. Isso ao tempo que te faz melhor, também te desgastará com o passar dos anos.

Não segure as lágrimas quando elas vierem, mas tenha certeza que elas não são pelos motivos errados, pelas pessoas erradas.

Viva sua idade, não perca tempo desejando ser mais velha. O futuro não aguarda nada de fenomenal além daquilo que você anda plantando hoje, enquanto se sente desejosa pelos anos a frente.

Você SEMPRE será diferente. Aos 3, aos 8, aos 12 e também aos 23. Tentar se misturar a multidão, além de desgastante, será trabalho perdido. Aceite suas diferenças e conviva com elas de forma amigável. Não demore tanto pra entender isso.

Em certas coisas, você vai demorar mais tempo que os outros para vivenciar. Nada que você possa fazer vai mudar isso. Na verdade, é melhor que não tente mudar mesmo. Mas não se desespere, isso não vai te fazer melhor ou pior que ninguém. Só diferente. E isso não é ruim. Só diferente.

Cuide bem do seu coração. Não o entregue assim facilmente, não acredite assim tão piamente e, principalmente, não seja assim tão extremista. Do ódio até o amor existem nuances que podem valer a pena serem exploradas.

Quando aquela sua velha tristeza chegar perto, não ignore-a. Trate-a bem. Tente entendê-la, pois você irá ter que conviver com ela ainda por muitos anos.

Pare de discutir com o espelho, tudo tem seu tempo. Com os anos você vai passar a se aceitar, cada vez mais um pouquinho. Não vale a pena o desgaste, se com o tempo tudo se resolve.

Cuidado com as amizades. Se elas te cobrarem ser algo que você não é, nem quer ser, abra mão delas e siga em frente sozinha. Vá se acostumando, que sozinha você será por muitos anos.

Meta a cara e saia sozinha. Não espere a companhia de ninguém. O mundo não é tão assustador quanto parece. E a sensação de solidão no meio da multidão não é assim tão devastadora. Tem até sua beleza.

Controle seus instintos. Eles podem te trazer arrependimentos e embaraços sem tamanho.

Por mais maravilhoso que possa ser o futuro que você vai ter, ele nunca terá as cores, o aroma nem todo esse brilho que você sonha. Não quer dizer que você vai se frustrar, mas tente não desejar tanto. Não tão perfeito. Pois nada do que você vai planejar vai acontecer como você quis, ou no momento que você pensou. Mas no final tudo vai dar certo. Só não da forma que você pensou. Então não aposte tão alto assim neste futuro que você conjectura. Prefira viver melhor o seu presente.

Enfatizando ainda mais: viva bem hoje, para que vinte anos depois você não olhe pra trás e veja um monte de anos borrados, corridos, sem fôlego e sem muito sentido.

Você não é responsável pela sua família. Eles é que são responsáveis por você. Você não tem idade nem a obrigação de levar a estrutura psicológica de uma família inteira nas costas. Então, quando você se cansar de escutar, grite. Quando não quiser mais se calar, fale. Eles não são de vidro e você não é um poço fundo onde qualquer um pode chegar e jogar suas lamúrias. Você já tem seus problemas. Não compre os problemas de mais ninguém.

Nada na sua vida é permanente, então pare com essa mania besta de andar com sapatos de lã pelo cascalho. Fale o que pensa e duvide dos outros. Acreditar demais só vai te trazer prejuízos.

Você é chata por natureza mas com os anos isso vai atenuando. Então não se cobre tanto, não acredite quando sua mãe falar que você é insuportável. Você já suporta o mal humor de todo o mundo, então tem todo o direito de ser chata quando der na telha. Isso não vai te fazer uma pessoa pior. Com o tempo você vai entender seu mundo e a convivência será um troço mais fácil.

Dezessete não será uma idade mágica. Assim como vinte e três também não. Nenhuma idade é mágica. A cada ano acontecem maravilhas e desgraças em igual dose. Não se encante nem se venda pela possibilidade de um futuro melhor, mais  bonito ou alegre... Tente fazer isso hoje.

Quando te disserem que te ama, duvide. E quando disserem que te odeia, acredite. Não insista em ninguém. Ninguém. Siga em frente como você sempre fez. Com o tempo, toda dor passa.

Ainda sobre dores: nenhuma dor é tão grande que você não possa suportar. E nenhuma vai durar um segundo a mais que o tolerável. Elas passam. Por mais terríveis e permanentes que pareçam ser. Elas passam e depois não sobra nem o nome, ou a cor dos olhos. Passa e você nem sente falta depois.

O seu conceito de liberdade e independência estão furados. Encontre outro.

E o principal: faça seus planos e viva sua felicidade sozinha. Não espere por ninguém que não vai chegar. Se concentre na sua felicidade unitária. As demais coisas podem ser acrescentadas depois disso.


Aldrêycka Albuquerque

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

...I'm vanishing

"You become more beautiful every year. Every grey hair, every line... Everything that happens to you makes you so much more desirable and I feel like if you would blow on me, I'd vanish, I'd disappear. I felt so invisible, so old."
Trecho do filme Chloe (O Preço da Traição)
"Você a cada ano está mais lindo. Cada cabelo branco, cada marca de expressão... Tudo que acontece com você te deixa mais atraente; e eu sinto como se você soprasse em mim, eu desapareceria. Me sinto tão invisível, tão velha." 

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

20 anos depois. 2 pessoas... Um dia.



Lembro muito bem. Lembro claramente do barulho da corrente de espinhos que me prendeu a ele. O dia, talvez não precisamente. O momento do gatilho que fez meu coração parar, talvez eu não saiba dizer exatamente. Mas lembro do sorriso, de quanto o vi pela primeira vez, do evento desencadeador de tudo o que fomos, e somos hoje. Não quero esperar vinte anos pra viver UM DIA. Preciso viver agora, com o que tenho. Preciso me virar sem ele. Desatar as correntes. Urgentemente.


Dica de LIVRO e FILME.

domingo, 2 de outubro de 2011

Setenta e tantos



O efeito de uma lente indiscreta



Eu que por anos venho implorando ao teus pés que me ame, que me aceite como sou.
Amando cada expressão tua, cada fio do teu cabelo, cada tom da tua voz.
E eu que por tanto tempo vim te amando, te aceitando com todos os teus defeitos.
Decorando cada palavra tua, cada música nossa.

Eu que por tantas noites procurei a lua na tua ausência,
Torcendo para que estivesse cheia e trouxesse tua sanidade de volta.
Amarguei cada noite sem luar, cada letra sem melodia, cada olhar vazio seu.
E eu que me alimento ainda mais da sua ausência do que da tua constância.
Cresci meu amor por todos os lugares onde você não estava, te deixando cercado.

E você que me pediu pra te deixar. Você que diz que já não ama, já não pensa, já não sente.
Me cercou te todo amor e desejo que pôde me incitar. Depois foi embora.
E eu que construí um castelo com todo amor que consegui extrair destes anos todos à tua espera.
Construí pra que você o destruísse.
Construí cada um dos meus sonhos pra que hoje você pudesse cantar uma música sem sentido pra mim, depois virar as costas e sair sem data pra voltar.

Exagerei nas palavras, no que sentia, no que via através dos teus olhos.
Construí um você pra mim, diferente de tudo o que você um dia já supôs ser.
E eu que era segura de mim, que não me entregava em águas turbulentas ou barcos naufragados,
Fui ser tua sem permissão.
Me passei por louca, infantil, imbecil e apaixonada.
Escutei mais algumas dúzias de palavras duras e humilhantes.
Daquelas que vez por outra você diz, e que em pouco tempo eu as subestimo e esqueço.

E eu que mais uma vez dei espaço para você se sentir livre para ir embora e voltar quando sentisse minha falta.
Ou pelo menos quando te desse na telha.
Também fui embora e tranquei a porta, mas deixei a chave reserva naquele lugar de sempre.
Torcendo pra você aparecer naquelas noites chuvosas, com o cabelo pingando e sem muitas palavras ou justificativas.
Simplesmente voltar. Por mais alguns dias, uma noite...
Até você por abaixo o que resta desta minha construção. Deste amor que construí sozinha.
Amor que te espera, que sofre, que me dá enjôo. Amor que te perdoa, mas nunca é perdoado.
Meu amor que é imenso como o oceano, mas que sempre se perde ao som da tua voz.

E enquanto você me pede pra ir embora, pra que eu me livre de você, eu estou sentindo teu cheiro doce.
Estou lembrando das tuas mãos nas minhas. Teus ombros, teus braços...
E por mais que você me diga que existam tantas outras, e que tua cama nunca permanece fria por muito tempo,
Ou que teus lençóis trazem paixões e perfumes mil, eu não te escuto.
Eu finjo que isso tudo é prova pro amor que construí, e te deixo ir embora mais uma vez, já imaginando o dia que você estará de volta.

Devo ser doente - não apenas louca ou infantil.
Devo te amar mais que a mim, e isso é que está me envenenando e me afastando de você.
Isso quer dizer que se um dia eu deixar de te amar, não foi porque você me pediu,
Nem por eu ter [enfim] queimado o que restou do nosso castelo de mentiras.
Eu só deixaria de te amar depois de tomar meu próprio veneno por tempo demais.
Quando toda essa dor de não te ter por completo, acabar de vez comigo.
É quando vou deixar te amar.
 Até lá, deixarei a luz da salinha acesa. A chave debaixo daquele vaso na varanda.
Volte quando estiver pronto pra ser amado sem reservas.



...setenta e tantos motivos pra não falar mais dele...






quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Para meu fantasma preferido



Isso soa como idiotice, mas ultimamente eu tenho me imaginado de frente com você, tocando no violão suas músicas favoritas. Será que você desviaria o olhar se eu cantasse para os seus olhos? Não sei tocar violão.
 
Queria já estar acostumada com o barulho que você deve fazer quando coloca as chaves em cima da mesa, ou saber que você chegou de ouvir o som da porta bater. Mas nossa rotina não se cruza dessa maneira.
 
Acho que nunca te contei, mas eu ainda acordo de madrugada procurando seu cheiro nos lençóis. É que o seu nome ainda não consegue me descrever seu perfume. Tem noites que paro pensamentos em como eu gostaria que meu travesseiro fosse seu peito, porque nessas últimas semanas, eu tenho dormido de lado só para que você caiba na minha cama.
 
A verdade é que paraliso toda vez que passo por alguém que tenha nos cabelos e olhos a mesma cor dos seus. E quando já nunca te esqueço, todo canto me faz te lembrar, você cabe em todos os lugares. Bem que poderia estar aqui para apagar as luzes e beijar a minha boca.
 
O que será que você faz enquanto escrevo? Tenho inveja de qualquer um que te conquiste a atenção, e tenho ciúmes de todos os seus sonhos. Tenho raiva daqueles que te querem, e tenho vergonha de admitir. Tenho muito medo dos seus planos e de não estar neles. Tenho tanta sorte de me sentir como sinto, mas sei também do azar que é não poder te encaixar o tempo todo aqui comigo. Tenho pensado bastante em nós e no que – ainda – não somos. Odeio estar tão apaixonada, mas é o que mais me faz sorrir.


O título original deste texto é PARA UM DOS MEUS FANTASMAS, e encontrei perdido aqui: http://meuretrato.wordpress.com/2008/08/05/para-um-dos-meus-fantasmas/

domingo, 18 de setembro de 2011

Cansada




Como eu posso te deixar em paz se você também não me deixa?
Você não tem o direito de sumir meses a fio, depois aparecer do nada.
É injusto, é triste, é dolorido.
E se você se esquiva de minimamente conversar, eu nunca vou poder fechar esse ciclo e seguir em frente.
Você parece confuso. Desarme-se ou me deixe ir embora.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

I've been here before



I don't know why I'm scared,
I've been here before,
Every feeling, every word,
I've imagined it all,
You'll never know if you never try,
To forgive your past and simply be mine,
I dare you to let me be your, your one and only,
Promise I'm worth it,
To hold in your arms,
So come on and give me a chance,
To prove I am the one who can walk that mile,
Until the end starts
Adele - One and Only

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Pessimismo e um coração instável



Podem me chamar de pessimista, mas aguardo notícias boas esperando elas darem errado. Por mais certeiras que pareçam, sinto que a qualquer momento uma geladeira vai cair do sétimo andar, e tudo vai dar errado. As vezes penso em meteoros também, esmagando a todos. :D

Pode ser um resultado de um teste, ou uma resposta de alguém que esperei por três anos. Tudo  de errado pode acontecer, inclusive nada acontecer! A lua pode nem aparecer e tudo terminar mal.

Por mais que eu conheça bem de projeções e ilusões, não consigo me manter afastada delas. Daí quando elas saem desse patamar para se configurarem realidade, ainda questiono se tudo não é mais um devaneio. Ah, esse meu jeito maluco de ser...

terça-feira, 13 de setembro de 2011

My sweetest downfall


Era meio dia e dez minutos. Eu ia atravessando a rua Imperial, quando o chão do Recife Antigo se abriu e de lá se transfigurou quem eu menos esperava. E em questão de horas, três anos de história foram abalados.  
Can I breathe now?


segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Café e livro velho




Beatriz custou a acordar naquela manhã. Se revirou na cama alguns minutos, tentando encontrar por ali algum punhado de sono, mas não achou. Sentou-se na cama, e suspirou: esse seria um daqueles dias nostálgicos com gosto de café e livro velho. Daqueles que mesmo com sol e calor lá fora, você sente aquele frio na espinha. Na verdade, Beatriz se sentia imersa num profundo Outono. Despedaçando restos secos do passado numa tentativa desesperada de abrir passagem pra uma primavera longínqua que ela não sabia quando, mas tinha certeza que iria chegar.

Pulou da cama pro chuveiro. Tentou lavar dali toda a angústia. Quinze longos minutos depois, saiu de lá enrolada numa toalha vermelha, secando os cabelos com a toalha que Pedro sempre usava quando estava por ali. Ainda friccionando freneticamente a cabeça, passou pela estante do quarto, e puxou um livro da Jane Austen. Pelo estado que estava aquele livro, parecia velho o suficiente para o dia de hoje. Talvez fosse um transtorno psicológico, mas pra Beatriz angústia combinava bem com livro velho. Provavelmente o cheiro de livro velho fosse uma forma involuntária dela se lembrar que as mágoas do seu passado se foram, mas as cicatrizes ainda doíam. Sacou da gaveta uma camiseta, vestiu o jeans que tinha jogado em cima da cadeira na noite anterior. Saiu trotando pela escada, agarrada com Orgulho e Preconceito, que já tinha lido tantas vezes que o livro estava só bagaço. Tomou um copo de café, e saiu caminhando pelas ruas que conhecia tão bem, mas que naquele dia pareciam tão pouco familiares.

Ao subir no elevador panorâmico do escritório onde trabalhava, Beatriz se lembrou dos dias em que contava telhados por entre os vidros da janela do seu quarto. Teve vontade de chorar. Relembrar os dias em que seu coração ainda não tinha tantas cicatrizes, dias em que sua família ainda estava por perto, e quando ainda sentia o calor da segurança que seus pais transmitiam. Agora ela estava sozinha, e a única pessoa que a fazia lembrar do conforto que era ter uma família, tinha desaparecido como quem se teletransporta para outra galáxia. Como isso poderia ser possível? Um dia ele reclamava por ter que tomar banho com o sabonete com aroma de baunília dela, e como isso o deixava irritado, como é que ela não sabia comprar um mísero sabonete sem cheiro de comida. No outro dia ela se acorda sem ninguém resmungando no box do banheiro. Como pode ser possível perder alguém que era tudo na sua vida, e simplesmente não cair morta na mesma hora? Como ela conseguia respirar, ficar de pé e ir trabalhar? Como é que ela se atreve a ler um livro e caminhar viva pelas ruas? Como é que toda sua vida é sugada por um buraco negro e ela consegue estar de pé? A porta do elevador se abre, e Beatriz volta do seu devaneio ainda com os  olhos marejados.

Ela sai andando pelos corredores do prédio como que no piloto automático, vai até sua mesa, e desaba na cadeira. Pelas próximas oito horas ela teria uma bela válvula de escape para se entreter. Pilhas de papéis, prazos e projeto para entregar. Nada melhor que o trabalho para te fazer esquecer que você tem uma vida.

Aldrêycka Albuquerque