domingo, 2 de outubro de 2011

Setenta e tantos



O efeito de uma lente indiscreta



Eu que por anos venho implorando ao teus pés que me ame, que me aceite como sou.
Amando cada expressão tua, cada fio do teu cabelo, cada tom da tua voz.
E eu que por tanto tempo vim te amando, te aceitando com todos os teus defeitos.
Decorando cada palavra tua, cada música nossa.

Eu que por tantas noites procurei a lua na tua ausência,
Torcendo para que estivesse cheia e trouxesse tua sanidade de volta.
Amarguei cada noite sem luar, cada letra sem melodia, cada olhar vazio seu.
E eu que me alimento ainda mais da sua ausência do que da tua constância.
Cresci meu amor por todos os lugares onde você não estava, te deixando cercado.

E você que me pediu pra te deixar. Você que diz que já não ama, já não pensa, já não sente.
Me cercou te todo amor e desejo que pôde me incitar. Depois foi embora.
E eu que construí um castelo com todo amor que consegui extrair destes anos todos à tua espera.
Construí pra que você o destruísse.
Construí cada um dos meus sonhos pra que hoje você pudesse cantar uma música sem sentido pra mim, depois virar as costas e sair sem data pra voltar.

Exagerei nas palavras, no que sentia, no que via através dos teus olhos.
Construí um você pra mim, diferente de tudo o que você um dia já supôs ser.
E eu que era segura de mim, que não me entregava em águas turbulentas ou barcos naufragados,
Fui ser tua sem permissão.
Me passei por louca, infantil, imbecil e apaixonada.
Escutei mais algumas dúzias de palavras duras e humilhantes.
Daquelas que vez por outra você diz, e que em pouco tempo eu as subestimo e esqueço.

E eu que mais uma vez dei espaço para você se sentir livre para ir embora e voltar quando sentisse minha falta.
Ou pelo menos quando te desse na telha.
Também fui embora e tranquei a porta, mas deixei a chave reserva naquele lugar de sempre.
Torcendo pra você aparecer naquelas noites chuvosas, com o cabelo pingando e sem muitas palavras ou justificativas.
Simplesmente voltar. Por mais alguns dias, uma noite...
Até você por abaixo o que resta desta minha construção. Deste amor que construí sozinha.
Amor que te espera, que sofre, que me dá enjôo. Amor que te perdoa, mas nunca é perdoado.
Meu amor que é imenso como o oceano, mas que sempre se perde ao som da tua voz.

E enquanto você me pede pra ir embora, pra que eu me livre de você, eu estou sentindo teu cheiro doce.
Estou lembrando das tuas mãos nas minhas. Teus ombros, teus braços...
E por mais que você me diga que existam tantas outras, e que tua cama nunca permanece fria por muito tempo,
Ou que teus lençóis trazem paixões e perfumes mil, eu não te escuto.
Eu finjo que isso tudo é prova pro amor que construí, e te deixo ir embora mais uma vez, já imaginando o dia que você estará de volta.

Devo ser doente - não apenas louca ou infantil.
Devo te amar mais que a mim, e isso é que está me envenenando e me afastando de você.
Isso quer dizer que se um dia eu deixar de te amar, não foi porque você me pediu,
Nem por eu ter [enfim] queimado o que restou do nosso castelo de mentiras.
Eu só deixaria de te amar depois de tomar meu próprio veneno por tempo demais.
Quando toda essa dor de não te ter por completo, acabar de vez comigo.
É quando vou deixar te amar.
 Até lá, deixarei a luz da salinha acesa. A chave debaixo daquele vaso na varanda.
Volte quando estiver pronto pra ser amado sem reservas.



...setenta e tantos motivos pra não falar mais dele...






Um comentário:

Danielly Wanessa disse...

Ola!!
Nossa tá dramática ultimamente!!rsrs
Sério ficou muito bonito, tocante. Embora seja triste que separação tão dolorida, to com pena da personagem.
Ainda mais Yelow no final completou a nostalgia.

Bjos!1
Está sempre escrevendo cada vez melhor!!como sempre disse você tem o dom da escrita!!!verdade!!