sábado, 30 de novembro de 2013

Sobre diferentes tipos de felicidade




stealing my happyness
 
Esses dias eu sonhei que ele realizava os meus sonhos. Não, veja bem, você não entendeu. Ele realizou os meus sonhos na vida dele, entende? Tudo o que eu sonhei, tudo o que desejei e lutei por toda a vida, ele conseguia. Era ele lá vivendo a minha vida e eu assistindo conformada. Pode isso? Alguém invadir o sonho do outro para vivê-lo no seu lugar? Pois foi o que aconteceu. Ele até estava feliz no meu lugar. Mas aquela era a minha felicidade, não a dele. E mesmo assim eu sorria, conformada, talvez até feliz.


E quando acordei, fiquei triste por estar feliz por ele. Triste como quando eu quero fazer você entender que eu não preciso de um mapa para me sentir segura. Ou quando você fica tentando fazer sua filosofia de vida entrar arranhando pela minha garganta. E eu fico tentando ignorar o fato de que o seu conceito de felicidade me deixa deprimida, enquanto o meu próprio conceito você julga insuficiente e errado. Como se eu estivesse navegando pelo lado errado do rio, ou se estivesse perdida. Era essa mesma sensação. Não exatamente tristeza, mas frustração misturada com conformação.

Aproveitando, gostaria de dizer que eu não preciso de um plano, bússola ou mesmo saber o lugar exato que eu tenho que estar daqui a cinco anos, para ser feliz. Eu também não preciso fazer o que você faz, ou pensar como você pensa. Porquê quando você fala de si, eu sempre sinto que está faltando algo que eu tenho. Só que eu não sei ao certo o que eu tenho, isso que me faz ficar deprimida por sua felicidade não ser igual a minha. É que toda vez que você me vem falar de felicidade, você aponta para tudo o que eu não sou e não tenho. Mas veja bem, não é só por causa disso, eu fico deprimida mesmo porquê as coisas que você apontou e que eu não tenho, são justamente as coisas que eu não quero ter. Não me fazem falta. Então conversar com você é me encontrar com uma versão de mim que não existe (nem existirá) e o pior, que provavelmente te faria feliz. Mas não a mim. Eu estaria deprimida. Mas será que somos assim tão incompatíveis mesmo?

Sabe porquê eu o amei tanto e por tanto tempo? (Não você, mas o cara que roubou e foi viver os meus sonhos.) É porquê apesar dele ser completamente diferente de mim, ter outros ideais e outros objetivos, ele respeitava muito quem eu era e quem eu estava me tornando. Não que eu precisasse de validação, VALIDATION IS FOR PARKING, como você bem sabe. Mas estar com uma pessoa que apesar de não querer construir um futuro com você, te aceita, te respeita e acredita em quem você é hoje e será amanhã, é no mínimo um alívio. Ruim mesmo é estar com alguém assim como você. Que não roubou meu sonho, mas fez muito pior. Você apontou pra mim e disse que tudo o que eu sou, e para onde eu vou não são suficientes para te fazer feliz. Isso é que dói. Você a todo dia grita o padrão de pessoa que eu deveria ser, poderia ser, e o quão feliz você estaria com isso, com essa minha versão parecida com você. Mas eu não estaria feliz, entenda, eu estaria... triste... eu não estaria sendo eu.

Todo mundo tem o direito de escolher seus próprios sonhos. Até de roubar e viver os sonhos dos outros, pelo jeito. Mas ficar demandando que o outro engula, aspire e viva o próprio sonho, isso não é correto. É uma transferência de objetivos de vida. Como se você estivesse assim tão feliz por ter encontrado o próprio caminho, que quisesse que os outros andassem nele também. Mas sinceramente, para mim a felicidade está no lado contrário de onde você está. Para mim a felicidade está dentro da minha cabeça, na forma que eu vejo e sinto o mundo. Não nos carimbos do meu passaporte. Não na minha conta bancária. Ou em uma agenda lotada de compromissos. Eu gosto do ócio criativo, eu gosto é da contemplação, eu gosto do simples, da calmaria, gosto de ter tempo pra cada coisa, gosto mais das pessoas pelo que elas são do que pelo o quê elas exercem. Eu gosto do anonimato, de falar só o que eu quero e com quem eu quero. Gosto de uma vida lenta, como se tivesse degustando uma comida gostosa. Eu gosto de recapitular o passado, gosto de analisar a vida e as pessoas sob a minha própria ótica e esperar ser surpreendida do contrário.Mas você não. Não é suficiente para você me enxergar como menos evoluída, precisa por o dedo e mostrar tudo o que eu não sou e que você gostaria que eu fosse. Essa não sou eu, não seria eu. 

O que custa catar os meus cacos e tentar encontrar valor neles? O que custa ver se os pedaços que fazem de mim quem sou seriam dignos de amor? Precisa ficar nessa caça incessante do que falta em mim?

Talvez o que você precise seja simples. Talvez você só precise entrar no meu sono como fez o outro, e por algumas horas roubar meus sonhos e senti-los. Sinta esse tipo de felicidade e me diga o que sente. Nothing fancy, nothing expensive, nothing complex. E então me diga como foi. Como se sentiu sem toda essa sua carga que você leva com tanto orgulho? Se gostar, eu até deixo você copiá-lo para você, o meu sonho. Te dou até um pouco dele para ver se você melhora desse seu humor. Só não me canse novamente com essas suas especificações de mim que eu nunca irei atender. É deprimente e sem sentido. E por último, escute bem atentamente. Repetir que se é feliz não faz disso uma verdade.

Eu só gostaria de fazer você entender que não existe uma busca pela felicidade. Geralmente ela é a atmosfera que nos cerca, só precisamos aprender a respirar da forma adequada. Você está tendo tempo para respirar, pelo menos?


Aldrêycka Albuquerque

Um comentário:

Camilla Rabelo disse...

Ei, Drêycka, quanto tempo não passo por aqui. Você foi uma das primeiras a me deixar comentário no blog quando eu voltei a escrever e até hoje não tinha deixado um por aqui, apesar de estar sempre visitando. Preciso retomar a vida blogueira na essência, inclusive nos comentários. Espero que a partir de agora, eu passe aqui todas as semanas. Parabéns pelo blog, continua ótimo como sempre.

Beijos!