quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

História sem nome (P3)


História Sem Nome
Parte 3

Ao tentar me contar a história, a garota preferiu começar pelo momento que ela mais gostava: o passeio cor de laranja. Então ela começou a contar e ao mesmo tempo reviver. Eles estavam no carro dele. Ela decorou tudo na memória: a estrada estava úmida e particularmente bela naquela manhã. No ar estava aquele cheiro de chuva recente e existia uma atmosfera cor de laranja sob a copa das árvores ao longo da estrada. Estudar aos sábados nunca foi tão prazeroso, pensava ela. Ele ligava para ela cedinho e por telefone derramava a voz mais doce e misteriosa que ela já escutou na vida. Assim, a garota contava os minutos para chegar à faculdade, sentar ao lado dele e depois, com sorte, passearem de carro até o ponto de ônibus.

Antes de continuar falando do tal passeio cor de laranja ela interrompe a nostalgia e começa a abrir um parêntese com tanto gosto e prazer que só fez provar o quanto ela ainda era louca por Sansão. Os parênteses eram sobre o belo sorriso do rapaz. Ele sorria com a alma, com o coração, dizia ela. Tinha uma gargalhada que aquecia o coração dela. Ela poderia identificar aquele sorriso no meio do Carnaval, em pleno Galo da Madrugada se fosse preciso. Era incrível, mas se ela pudesse escolher duas coisas pelas quais ela era mais apaixonada nele (se na verdade ela não o amasse por completo como o faz), seria seu sorriso e seu olhar. Definitivamente esses dois a faziam voltar pra ele sempre.

Voltando ao passeio, enquanto ele dirige e fala sobre como o pai dele dirige mal, a mãe dele dirige bem e como ele ensinou uma amiga a dirigir, a garota fica pensando em quantas vezes ela vai reviver aquele momento na sua memória. Ela tem a plena certeza que nunca vai esquecer daquele momento. Nem em mil anos. Sansão fala, e só escuta ela concordando com ele alguns “anham” extremamente sonoros e chatos. Já a garota decora cada milímetro daquele pedaço de história e só consegue escutar música:

“Mudaram as estações, nada mudou
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
Está tudo assim tão diferente...
Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre, sem saber, que o pra sempre
Sempre acaba...”
Cassia Eller

Música, muita música. A voz dele parece música, aquele momento parece ter saído de uma música. Ela continua decorando tudo (e como tudo está diferente!). Estava tudo laranja e em câmera lenta. Era ela eternizando tudo de novo. Era o grande problema dela: sempre achar que tudo “é grande coisa”. E muitas vezes não é! Não passa de banalidades e acasos. Mas para ela eram dádivas e pérolas que ela colhia pelo caminho e guardava na memória insana e seletiva dela. Pobre garota, dona de uma história impessoal e sem nome.

Aldrêycka Albuquerque

Continua...


Confira o começo desta história:

2 comentários:

Gabi M. disse...

Diria: Focalizando o amor "ETERNO".

Bjuu

Luciana disse...

Ei,tem um comentário respondendo ao seu lá no "Dos que fervem"
Vai lá.